30 de julho de 2014

Zazen - 27/07/2014


Como meditar?

O ZEN é o caminho para salvar a si mesmo.

A nossa prática é o Zazen Shikantaza (meditação sentada).

Deixe os pensamentos fluírem livremente, não se apegue nem se afaste de nenhum pensamento, deixe-os virem e deixe-os irem. Penetre profundamente em si mesmo.

Não julgue, não avalie, não compare, não estime. Para ajudar a si mesmo é necessário penetrar em seu próprio ser, profundamente, sem o conceito de dualidade.

Bom mau, começo fim, lucro perda, objetivo subjetivo, certo errado, eu e os outros, vida e morte, pequeno e grande. Livre-se da dualidade.

Além da dualidade está o verdadeiro sentido de todas as coisas, a compreensão de si mesmo. Sem dualidade não há nascimento e morte, eu e os outros.

A dualidade é a origem de todo o sofrimento humano.

Pratique diligentemente.

Fonte: Reverendo Saikawa Roshi. Superior da Escola Soto Zen na América do Sul. Abade do Templo Busshinji - http://www.sotozen.org.br.
Imagem: Monge Daitetsu

4 de outubro de 2012

The Buddha - Documentário



Este documentário da PBS do premiado cineasta David Grubin e narrado por Richard Gere, conta a história da vida de Buda. Ele apresenta o trabalho de alguns dos maiores artistas do mundo e escultores através de dois milênios representando a vida de Buda na arte com grande beleza e complexidade. Ouviremos idéias e narrativa antigas pelos budistas contemporâneos, incluindo o vencedor do Prêmio Pulitzer poeta WS Merwin e Sua Santidade o Dalai Lama. Acompanhe a história para aprender mais sobre a meditação, a história budista e como incorporar os ensinamentos de Buda sobre a compaixão e atenção à vida cotidiana.

Informações Técnicas :

Título no Brasil: O Buda
Título Original: The Buddha
Paísde Origem: EUA
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento: 2010
Estúdio/Distrib.:
Direção: David Grubin

Texto traduzido e adaptado de http://www.pbs.org/thebuddha/




30 de setembro de 2012

A recompensa da prática

    
Estamos sempre tentando levar nossa vida da infelicidade para a felicidade. Ou, poderíamos dizer, desejamos nos mudar de uma vida de lutas para uma de alegria. Mas essas coisas não são as mesmas: sair da infelicidade para a felicidade não é mesmo que sair da luta para a alegria. Algumas terapias buscam levar-nos de um eu infeliz para um eu feliz. A prática zen, porém, (e, talvez, algumas outras disciplinas e terapias) pode ajudar-nos a sair do eu infeliz para o não-eu, que é a alegria. 
     
Ter um "eu" significa que somos autocentrados. Ser autocentrado -e, portanto, em oposição a coisas externas -é ser ansioso e ficar preocupado consigo mesmo, é reagir de imediato com aspereza, quando o meio externo se nos opõe. Ficamos aborrecidos facilmente. Sendo autocentrados, ficamos muitas vezes confusos. É assim que a maioria das pessoas vivencia a própria vida. 

Embora não estejamos familiarizados com o lado oposto ao eu (não-eu), tentemos pensar que espécie de vida poderia ser a do não-eu. Não-eu não significa desaparecer do planeta ou deixar de existir. Não é nem estar autocentrado, tampouco centrado no outro; apenas, é estar centrado. A vida do não-eu não está centrada em coisa alguma em particular, mas em todas as coisas; ou seja, está desapegada e, por isso, as características de um eu não podem aparecer. Não somos ansiosos, ou preocupados, não nos irritamos com facilidade, não nos aborrecemos a todo instante, e, principalmente, nossa vida não tem o sabor característico da confusão. Por isso, ser o não-eu é alegria. Não apenas isso. O não-eu, por não se opor a nada, é benéfico a tudo. 
     
Para a absoluta maioria, porém, a prática precisa acontecer dentro de uma estratégia organizada, numa dissolução implacável do eu. O primeiro passo que devemos dar é nos mudar da infelicidade para a felicidade. Por quê? Porque não há de modo algum meio pelo qual a pessoa infeliz -perturbada consigo ou com os outros, ou com as situações -possa ser a vida do não-eu. Assim, o primeiro estágio da prática deveria ser o nosso deslocamento da infelicidade para a felicidade, e os primeiros anos de zazen são principalmente dedicados a esse movimento. Para algumas pessoas, uma terapia inteligente pode ser proveitosa nessa etapa. Entretanto, as pessoas são muito diferentes entre si e não podemos generalizar. No entanto, não podemos (ou não devemos) tentar saltar este primeiro movimento de uma relativa infelicidade para uma relativa felicidade. 
     
Por que digo "relativa" felicidade? Independente do quanto podemos sentir que nossa vida é "feliz", se ela estiver baseada num eu, não podemos ter uma resolução final. Por que não pode haver uma resolução final para uma vida que se baseia num eu? Porque tal vida está fundamentada numa premissa falsa, a de que somos um eu. Sem exceção, todos nós acreditamos nisso. Toda prática que interrompa a adaptação provisória do eu é, em última análise, insatisfatória. 
    
Compreender a própria natureza como não-eu –um Buda -é fruto do zazen e do caminho da prática. A coisa importante (já que essa é a única realmente satisfatória) é seguir esse caminho. Enquanto nos debatemos com a questão de nossa verdadeira natureza -eu ou não-eu- a base toda de nossa vida precisa mudar. Para travar de modo adequado essa batalha, todo sentimento, todo propósito, toda orientação da vida devem ser transformados. Quais poderiam ser os passos dessa prática? 
     
O primeiro, como já mencionei, é a saída da relativa infelicidade para a relativa felicidade. Na melhor das hipóteses, é um feito instável, que facilmente se perde. Mas devemos ter um certo nível de felicidade relativa e de estabilidade para nos envolvermos com uma prática séria. Então, podemos estar em condições de tentar o estágio seguinte: filtrar com inteligência e persistência as várias características da mente e do corpo através do zazen. Começamos a notar nossos padrões; começamos a observar nossos desejos; nossas necessidades; nossos impulsos egóicos; e começamos a perceber que esses padrões, esses desejos, esses vícios são o que chamamos de eu. Conforme nossa prática continua, começamos a entender o vazio e a impermanência desses padrões e acreditamos que podemos abandoná-los. Não precisamos tentar abandoná-los; eles apenas se dissolvem lentamente com o tempo, pois, quando a luz da conscientização incide no que quer que seja, diminui o falso e aumenta o verdadeiro; e nada incandesce mais essa luz do que um zazen inteligente, realizado todos os dias e nos sesshins. Com o desaparecimento de alguns desses padrões, o não-eu -que está sempre presente -pode começar a manifestar-se e com ele aumentam a paz e a alegria ao mesmo tempo. 
     
Esse processo, embora fácil de ser mencionado, é às vezes assustador, desanimador, desencorajador; tudo aquilo que pensávamos era nós mesmos durante tantos anos, e está sob ataques. Podemos sentir um medo imenso, enquanto essa transição está acontecendo. Pode parecer encantadora enquanto falamos sobre ela, mas, ao pô-la em prática pode ser horrível.
      
No entanto, para quem tiver paciência e determinação em sua prática, a alegria aumenta; a paz aumenta; aumenta a capacidade de viver de modo benéfico e compadecido. E a vida, que talvez sofra com os caprichos das circunstâncias externas, sutilmente se altera. Essa vida que se transforma devagar não é, contudo, isenta de problemas. Eles estarão presentes. Durante um certo período nossa vida pode ficar pior do que antes, à medida que pomos a nu o que antes mantivera-se encoberto. Mas, mesmo quando isso acontece, temos uma sensação de crescente saúde interior e compreensão, uma sensação de satisfação básica.
     
Para manter a prática através de dificuldades graves, devemos ter paciência, persistência e coragem. Por quê? Por causa de nosso costumeiro modo de viver em busca de felicidade, esforçando-nos para satisfazer desejos, e lutando para evitar dores mentais e físicas; a prática determinada é sempre solapada. Aprendemos na boca do estômago e não só com nosso cérebro que uma vida de alegria não está na busca da felicidade e, sim, no experimentar e simplesmente ser as circunstâncias de nossa vida, tais como são; não em satisfazer desejos pessoais, mas em satisfazer as necessidades da vida; não em evitar a dor, mas em sê-la quando necessário. É tarefa grande demais? Difícil demais? Pelo contrário, é o caminho mais fácil.
    
Uma vez que só podemos viver nossa vida através de nossa mente e corpo, não há quem não seja um ser psicológico. Temos pensamentos, esperanças, podemos ser feridos ou ficar aborrecidos. Porém, a solução real deve vir de uma dimensão que seja radicalmente diferente da dimensão psicológica. A prática do desapego, o crescimento do não-eu, é a chave do entendimento. Por fim, compreendemos que não há caminho, não há meio, não há solução; porque, desde o começo, nossa natureza é o caminho, o meio, bem aqui e agora. Porque não há caminho, nossa prática é seguir infindavelmente esse não-caminho, sem se importar com nenhuma recompensa.
    
Porque o não-eu é tudo, não necessita de recompensa; desde o não-início é em si mesmo a realização completa.

Charlotte Joko Beck - Sempre Zen

Imagem: Charlotte (http://sweepingzen.com/)

27 de setembro de 2012

Roshi Mumon Yamada


“Quanto mais você tenta conhecer os princípios do zen lendo livros, mais se distancia da natureza da iluminação. Entretanto, se tentar alcançar o conhecimento sentando-se, sem especulação, a iluminação começará a brilhar por si mesma, e você compreenderá o verdadeiro Eu Inteiro, o que estava procurando.”

Roshi Mumon Yamada

Imagem: http://onedropzen.org/

25 de setembro de 2012

Meditação em um instante - One moment meditation


Compartilho este video para pessoas que se interessam por meditação mas não tem muito tempo.

Um bom exemplo de meditação para iniciantes e para pessoas muito ocupadas.

Por que palavras?


Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua — com uma grande dúvida:

"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"

O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."

O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"

"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."

"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"

"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.


(Enviado por Tam Hao Van )

24 de setembro de 2012

O Rei da Mente


Hsin-wang-ming por Fu-yu (497-569)

Contemple a mente; este rei da vacuidade
É sutil e intruso.
Sem nome ou forma,
Ele tem grande poder espiritual.

Pode eliminar todas as calamidades

E realizar todos os méritos.
Apesar de sua essência ser vazia,
Ele é a medida dos fenômenos.

Quando você olha, é sem forma;

Quando você o chama, ele ecoa.
É o grande comandante do Dharma
Transmitindo os sutras através dos preceitos da mente.

Assim como o salgado na água do oceano, de cor transparente, 

Certamente está lá, mas sua forma é invisível,
O rei da mente também é assim,
Residindo no corpo.

Ele entra e sai diante dos seus olhos,

Respondendo aos fenômenos, seguindo as emoções.
Quando está despreocupado, sem obstrução,
Todos os esforços têm sucesso.

Quando você realiza a mente original,

A mente vê o Buddha.
Esta mente é o Buddha;
Este Buddha é a mente.

Todo pensamento é a mente de Buddha;

A mente de Buddha permanece no Buddha.
Se você deseja realizar isto em breve,
Esteja vigilante e disciplinado.

Os preceitos puros purificam a mente;

A mente então é Buddha.
Separado deste rei da mente,
Não há outro Buddha.

Se você deseja procurar o estado búddhico,

Não macule coisa alguma.
Apesar de a natureza da mente ser vazia,
A cobiça e o ódio são reais.

Quando você entra por esta porta do Dharma,

Sentando-se ereto, você se torna o Buddha.
Ao alcançar a outra margem,
Você atinge a perfeição.

Os verdadeiros aspirantes ao caminho

Contemplam a sua própria mente.
Sabendo que o Buddha está no interior,
Não há necessidade de procurar no exterior.

Bem agora a mente é o Buddha;

Bem agora o Buddha é a mente.
A mente brilhante conhece o Buddha;
O iluminado conhece a mente.

Separado da mente, não há Buddha;

Separado do Buddha, não há mente.
Aqueles que não são Buddhas não podem penetrar;
Não estão preparados para a tarefa.

Agarrar a vacuidade e bloquear a tranqüilidade

Resulta em flutuar e afundar.
Nem buddhas nem bodhisattvas
Estabelecem suas mentes deste modo.

O grande ser da mente brilhante

Despertou para este som sutil.
A natureza do corpo e da mente é maravilhosa;
Suas funções não precisam ser alteradas.

Assim, o sábio derruba a mente e a deixa ser.

Não diga que o rei da mente é vazio e sem essência;
Ele pode fazer o corpo
Fazer o mal e o bem.

Não existe, nem é não-existente.

Aparece e desaparece imprevisivelmente.
Quando a natureza da mente parte da vacuidade,
Ela pode ser sagrada ou profana.

Assim, imploramos uns aos outros

Que a guardem com cuidado.
No momento de se moldar,
Ele se reverte ao flutuar e afundar.

A sabedoria da mente pura

É tão preciosa quanto o ouro.
O tesouro de sabedoria do Dharma
Está dentro do corpo e da mente.

O tesouro do Dharma da não-ação não é superficial nem profundo.

Todos os buddhas e bodhisattvas realizaram este mente original.
Para aqueles cujas condições estão corretas,
Ela não é passado, presente ou futuro.

Verso da iluminação


A mão vazia segura a enxada.

Os pés andando, cavalgando o búfalo d'água.
O homem anda sobre a ponte,
A ponte flui, a água não flui.

Adaptado de Sheng-yen, The poetry of enlightenment: Poems by ancient

Ch'an masters. Elmhurst: Dharma Drum Publications, 1987. Pág. 15, 17-20.
Imagem: Shambhala Publications (http://www.shambhala.com/)

21 de setembro de 2012

Momento presente, momento maravilhoso




Em nossa sociedade atarefada, é uma grande ventura respirar conscientemente de vez em quando. Podemos praticar a respiração consciente não só sentados na sala de meditação, mas também enquanto trabalhamos no escritório ou em casa, enquanto dirigimos, ou quando estamos sentados no ônibus, onde quer que estejamos, a qualquer hora do dia.

Há uma infinidade de exercícios que podem nos ajudar a respirar conscientemente. Além do simples "Inspirando-Expirando", podemos recitar em silêncio estas quatro linhas enquanto inspiramos e expiramos:

Inspirando, acalmo meu corpo.
Expirando, sorrio.
Pousado no momento presente, sei que este é um momento maravilhoso.

"Inspirando, acalmo meu corpo." Recitar essa frase é como beber um copo de limonada gelada num dia de calor (dá para se sentir o frescor invadindo o corpo). Quando eu inspiro e digo esse verso, chego a sentir minha respiração acalmando meu corpo e minha mente."Expirando, sorrio." Você sabe que um sorriso pode relaxar centenas de músculos no seu rosto. Sorrir é um sinal de que se tem domínio sobre si mesmo.

"Pousado no momento presente." Enquanto estou sentado aqui, não penso em mais nada. Estou sentado aqui e sei exatamente onde estou.

"Sei que este é um momento maravilhoso." É uma alegria estar sentado, em conforto e segurança, e voltar para a respiração, para o sorriso, para a verdadeira natureza do eu. Nosso compromisso com a vida é no momento presente. Se não tivermos paz e alegria agora, quando as teremos? Amanhã, depois de amanhã? O que nos impede de sermos felizes neste exato momento? Enquanto prosseguimos com nossa respiração, podemos dizer simplesmente, "Acalmo, Sorrio, Momento presente, Momento maravilhoso."

Esse exercício não é só para os iniciantes. Muitos de nós que praticamos a meditação e a respiração consciente há quarenta ou cinquenta anos continuamos a praticar dessa forma, porque esse tipo de exercício é muito importante e muito fácil.

Thich Nhat Hanh
Imagem: 
Metta Refuge (http://mettarefuge.wordpress.com/)

19 de setembro de 2012

Receita Zen para o Dia a Dia



Em verdade, em verdade vos digo, a menos que um grão de trigo caia na terra e morra, ele permanece sozinho; mas, se morrer, trará muitos frutos.


A Bíblia diz: "A menos que você morra, não poderá renascer para a vida." A prática budista consiste em ir morrendo devagar, passo a passo, deixando de nos identificar com as nossas fixações. Se nos mantemos fixados ao que quer que seja é porque ainda não morremos. Assim, quando deixamos de nos fixar, agrilhoar, a nossos parceiros não quer dizer que não os amamos porque na medida que desenvolvemos a prática, reduzimos as compulsões. Nosso amor cresce e a compulsão diminui porque não é possível amar o objeto de nossa compulsão.

Se precisarmos de aplausos, é porque ainda não morremos.
Se precisarmos de poder, é porque ainda não morremos.
Se precisarmos de destaque, é porque ainda não morremos
Se não pudermos trabalhar com humildade, é porque ainda não morremos.
Se precisarmos projetar uma certa imagem, é porque ainda não morremos.
Se precisarmos que tudo venha de encontro aos nossos desejos, é porque ainda não morremos. 

Eu não morri de nenhuma destas formas. Sinto ainda os grilhões que me prendem e não coloco grande empenho em me libertar deles; ao morrermos eles deixarão de existir. Neste sentido, um iluminado não é humano, e não conheço ninguém assim. Ao longo da vida conheci pessoas extraordinárias, mas jamais ninguém assim. Então, vamos nos contentar em ser quem somos, praticando com empenho, porque já é ótimo! Na medida em que nos libertamos de nossos grilhões podemos, cada vez mais, abarcar a vida tal como ela se manifesta. Este é o voto do bodhisattva. Assim, na medida em que a nossa prática amadurece — e somente neste medida — podemos servir melhor, agir melhor, integrando as polaridades, é disto que consta a prática do Zen. Meditar, como meditamos, é o caminho, então vamos meditar com todo empenho. Só posso ser quem sou hoje, estar presente aqui e agora e agir à luz desta experiência. É tudo o que posso fazer. O demais é pura fantasia fabricada pelo ego.


Texto de Charlotte Joko Beck 
Tradução para o português de Tenzin Nandrol
Imagem: Non-Duality Magazine (http://www.nondualitymagazine.org)

18 de março de 2012

Pratique o Zazen




Usualmente, sem que tenhamos consciência disso, tentamos mudar as coisas em vez de mudar a nós mesmos; tentamos arrumar as coisas que estão fora de nós. Mas é impossível ordenar as coisas se você mesmo não está em ordem. Quando você faz as coisas de forma certa, no momento oportuno, tudo o mais se organiza. Você é o chefe. Quando o chefe está dormindo, todos dormem. Quando ele faz algo bem feito, todos os demais o fazem igualmente bem e no tempo certo. Este é o segredo do buddhismo. Portanto, procure manter a postura correta, não apenas quando pratica zazen mas em todas as suas atividades. Adote a postura certa quando estiver dirigindo um carro ou quando estiver lendo. Se você lê numa posição displicente, não pode ficar lúcido por muito tempo. Experimente. Você descobrirá como é importante manter a postura correta. Este é o ensinamento verdadeiro. Ensinamentos escritos no papel não são verdadeiros ensinamentos, são alimento para o cérebro. Claro que é preciso alimentar o cérebro; porém, o mais importante é ser você mesmo praticando a forma correta de viver.

Eis por que o Buddha não pôde aceitar as religiões que existiam na sua época. Ele estudou várias religiões mas não ficou satisfeito com suas práticas. Não encontrou respostas no ascetismo ou nas filosofias. Ele não estava interessado nos aspectos metafísicos da existência, e sim em seu próprio corpo e sua própria mente no aqui e agora. E quando encontrou a si mesmo, descobriu que tudo quanto existe tem natureza búddhica. Essa foi sua iluminação. Iluminação não é uma sensação agradável ou algum estado particular da mente. O estado da mente que existe quando você se senta em postura correta é, por si só, iluminação. Se você não está satisfeito com o estado da mente que tem no zazen, significa que sua mente está divagando por aí afora.

E nosso corpo e nossa mente não devem oscilar nem vaguear. Nessa postura, não há por que falar em estado correto da mente. Você já o possui. Esta é a conclusão do buddhismo.

Shunryu Suzuki - Mente de Principiante.

Bodhidharma (Daruma) e o Zen



Bodhidharma ensinava que a iluminação não se encontra em livros ou rituais, mas no interior de nós mesmos. E através da meditação limpamos os véus do obscurecimento e recordamos a nossa natureza de Buda. 

Bodhidharma definiu o Zen como uma transmissão especial para além das escrituras, que não depende de palavras ou letras, mas aponta directamente para a mente, vendo a nossa verdadeira natureza e alcançando a Iluminação("A special transmission beyond Scriptures, Not depending on words or letters, But pointing directly to the Mind, Seeing into one's true Nature, And realizing one's own Enlightenment").

Esta mente é por ele descrita como, desde tempos sem começo, nunca ter mudado. "Nunca viveu ou morreu, apareceu ou desapareceu, cresceu ou diminuiu. Não é pura nem impura, boa ou má, passado ou futuro. Não é verdadeira nem falsa. Não é macho ou fêmea. Não surge como um monge ou um laico, um ancião ou um noviço, um sábio ou um louco, um buda ou um mortal. Não procura a realização e não experimenta o karma. Não tem solidez ou forma. É como o espaço. Não o possuis e não o perdes. Os seus movimentos não podem ser bloqueados por montanhas, rios ou rochas. Nenhum karma pode restringir este corpo real. Mas esta mente é subtil e difícil de ver. Não é o mesmo que a mente dos sentidos. Todos querem ver esta mente e os que movem os pés e as mãos à sua luz são tão numerosos como as areias do Ganges, mas quando lhes perguntas, não conseguem explicá-la. Pertence-lhes e usam-na. Mas porque não a podem ver?... Só os sábios conhecem esta mente, esta mente chamada natureza do dharma, esta mente chamada libertação. Nem a vida nem a morte a pode libertar. Nada pode. Também se chama o Imparável Tathagata, o Incompreensível, o Eu Sagrado, o Imortal, o Grande Sábio. O nome varia mas não a essência." 

Fonte: dados biográficos recolhidos de Denkoroku, The Record of the Transmission of Light, de autoria do Mestre Zen Keizan Jokin. Citações traduzidas livremente de The Zen Teaching of Bodhidharma. Para mais reproduções de Daruma, ver www.shambhala.com/zenart.

22 de setembro de 2011

O Monge e o Macaco






Excelente curta de animação criado por dois alunos da instituição, Brendan Carroll e Fancesco Giroldini. 

O monge e o macaco conta a história do jovem e determinado Ragu que é enviado por seu mestre para cumprir uma última tarefa antes de se tornar um monge. No entanto, o que parecia relativamente simples e fácil se converte em um verdadeiro desafio.

Dar e Receber


Um professor de Zen, após anos como orientador de um aluno particularmente sensível e sábio, resolveu lhe dar um presente:


"Estou ficando velho, em breve morrerei. Para simbolizar sua sucessão a mim como mestre vou lhe dar este livro valiosíssimo."

O discípulo, entretanto, não estava interessado em livros:

"Não é necessário, obrigado, mestre. Eu aceitei o seu ensinamento como o Zen que prescinde a palavra escrita. Gosto de sua face original. Fique com seu precioso livro."

O professor insistiu, e afirmou, orgulhoso:

"Este livro atravessou sete gerações, é uma relíquia! Por favor, fique com ele como um símbolo de sua aceitação do manto e da tigela!"

O outro apenas disse:

"Está bem, dê-me o livro."

Ao recebê-lo, o discípulo simplesmente atirou o livro no fogo próximo, queimando-o. O professor ficou chocado. Gritou para o aluno, indignado:

"Como pôde fazer isso?! Era uma peça inestimável de conhecimento!"

Foi a vez do sábio discípulo ficar indignado:

"Como podes dar mais valor a papel e couro do que àquilo que me ensinastes diretamente, de forma pura?
Ensinar uma sabedoria que não se pode praticar é como agir sem coração, e não ser nada mais do que um repetidor de textos sagrados. Tu me deste um objeto, e eu usufrui dele como considerei adequado. Como podes ficar indignado com um simples 'dar e receber'?"

Koan: O que é "possuir"?

14 de setembro de 2011

O mestre Zen e o terremoto

Enso - Caligrafia de Kanjuro Shibata XX, ca. 2000

Aconteceu que um mestre Zen foi chamado como convidado. Alguns amigos haviam se reunido e estavam comendo e conversando quando, de repente, houve um terremoto. O prédio em que eles estavam era um prédio de sete andares, e eles estavam no sétimo andar, então a vida estava em perigo.

Todo mundo tentou escapar. O anfitrião, correndo, olhou para ver o que tinha acontecido com o mestre. Ele estava ali sem sequer uma ruga de preocupação no rosto. Com os olhos fechados, ele estava sentado em sua cadeira da mesma maneira que estava sentado antes.

O anfitrião sentiu-se um pouco culpado, sentiu-se um pouco covarde; não fica bem que o hóspede fique sentado e o anfitrião fuja. Os outros, os outros vinte hóspedes, já tinham descido as escadas, mas ele parou, embora estivesse tremendo de medo, e se sentou ao lado do mestre.

O terremoto chegou e passou, o mestre abriu os olhos e retomou a palestra que, por causa do terremoto, havia interrompido. Ele continuou novamente, exatamente na mesma frase - como se o terremoto não tivesse acontecido.

O anfitrião estava agora sem vontade de ouvir, não estava com disposição de entender porque todo o seu ser estava muito perturbado e ele estava com muito medo. Mesmo que o terremoto já tivesse ido embora, o medo ainda estava lá.

Ele disse: "Agora não diga nada, porque não serei capaz de compreender, não sou mais o mesmo. O terremoto me perturbou muito. Mas há uma pergunta que eu gostaria de fazer. Todos os outros hóspedes haviam escapado, eu também estava na escada, já quase correndo, quando de repente me lembrei de você. Vendo você aqui sentado com os olhos fechados, sentado tão tranquilo, tão imperturbável, me senti um pouco covarde - sou o anfitrião, eu não deveria correr. Então voltei e estou aqui sentado ao seu lado. Gostaria de fazer uma pergunta. Nós todos tentamos fugir. O que aconteceu a você? O que você me diz sobre o terremoto?"

O mestre disse: "Eu também fugi, mas você fugiu para fora, eu fugi para dentro. Sua fuga é inútil porque para onde quer que você esteja indo lá também há um terremoto, então é sem sentido, não faz sentido. Você pode alcançar o sexto andar ou quinto ou o quarto, mas lá também há um terremoto. Eu fugi para um ponto dentro de mim onde nenhum terremoto jamais chega, não pode chegar. Entrei em meu centro.

No Zen eles têm um ditado que diz que um mestre Zen que tenha alcançado o seu centro interior pode passar por um riacho, mas a água nunca toca seus pés . Isso é belo. Não quer dizer que a água nunca toca seus pés - a água vai tocá-los -, refere-se a algo sobre o mundo interior, o profundo interior. Nada o toca, tudo permanece fora, na periferia, e o centro permanece intocado, puro, inocente, virgem. 

Fonte: Osho, em "Living Tao"

10 de setembro de 2011

Nada existe

Yamaoka Tesshū - Domínio Público
Yamaoka Tesshū, quando era um jovem estudante Zen, visitou um mestre após outro. Ele então foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto já sabia, ele disse, vaidoso:

"A mente, Buddha, e os seres sencientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenômenos é vazia. Não há realização, nenhuma delusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o Dar e tampouco nada a receber!"

Dokuon, que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando xingamentos.

"Se nada existe," perguntou, calmo, Dokuon, "de onde veio toda esta sua raiva?"

Koan: "Nada Existe"

7 de setembro de 2011

Serena Morada

Imagem: Andy Enero/Flickr (https://www.flickr.com/photos/andyenero) - Daily meditation walk of the Buddhist nuns in Tu Hieu Pagoda

.
serena é a morada
daquele que
silenciosamente
senta
espera
sem nada esperar
apenas é

.
serena é a morada
daquele que não deseja:
ser melhor, superior, independente, separado,
dentre todos,
o mais reverenciado
deseja, sem desejar nada
ser um com todos os seres

.
serena é a morada
daquele
que deixa o rio
seguir seu rumo
seja ele qual for:
bom ou ruim
correto ou incorreto

.
sem obstruir nada
sem represar nenhuma gota d´água
a vida serenamente se encarrega de pôr
tudo em seu lugar
de fluir e refluir

.
deixa tudo sempre livre
deixa tudo
abandona tudo
sem abandonar nada

.
serena é a energia
que permeia tudo que há e que não há
pura,
sem peso,
sem forma,
sem julgamento
sem desejo sem punição

.
serena é a morada
de quem é

Fonte e Autor desconhecidos.

3 de setembro de 2011

Tanzan e Ekido


Tanzan e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta. Uma pesada chuva ainda caía,
dificultando a caminhada. Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida com um
quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a intercessão.
"Venha, menina," disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus braços, ele a carregou atravessando o
lamaçal.
Ekido não falou nada até aquela noite quando eles atingiram o alojamento do Templo. Então ele não mais
se conteve e disse:
"Nós monges não nos aproximamos de mulheres," ele disse a Tanzan, "especialmente as jovens e belas.
Isto é perigoso. Por que fez aquilo?"
"Eu deixei a garota lá," disse Tanzan. "Você ainda a está carregando?"

2 de setembro de 2011

Uma tigela, o vazio


Eis aqui uma anedota famosa concernente ao mestre rinzai Ikkyu, que viveu, aproximadamente, há 03 ou 04 séculos.
Ikkyu era, então, um monge muito jovem que vivia num templo zen, onde vivia também seu irmão. Um belo dia, esse último deixou cair no chão uma tigela da cerimônia do chá, que se quebrou; a tigela era ainda ais preciosa porque fora presente do imperador. O chefe do templo admoestou-o severamente, fazendo chorar o mongezinho.
Ikkyu, todavia, recomendou-lhe que não se preocupasse:

- Tenho sabedoria. Posso encontrar uma solução.

Juntou os pedaços da cerâmica, colocou-os na manga do seu kolomo e foi descansar no jardim do templo, enquanto esperava, pachorrento, o regresso do mestre. Tanto que o avistou, foi ao seu encontro e propôs-lhe um mondo:

- Mestre, os homens nascidos neste mundo morrem ou não morrem?

- Morrem, decerto – respondeu o mestre. – O próprio Buda morreu.

- Compreendo – volveu Ikkyu – , mas no que respeita às outras existências, os minerais ou objetos também estão destinados a morrer?

- É claro! – reponde o mestre – Todas as coisas que têm forma devem morrer necessariamente, quando surge o momento.

- Compreendo – disse Ikkyu. – Em suma, como tudo é perecível, não deveríamos precisar chorar nem lastimar o que já não existe, nem sequer zangar-nos com o destino.

- Está visto que não! Aonde queres chegar? – inquiriu o mestre.

Ikkyu tirou da manga do kolomo os destroços da tigela, que apresentou ao mestre. Este ficou boquiaberto.

31 de agosto de 2011

O sabor do Zen

Minagawa Shunzaemon, célebre poeta muito apegado à rima e adepto do zen, ouviu falar num famoso mestre zen, Ikkyu, chefe do templo de Daitoku-ji, situado na região dos campos violeta. Desejando tornar-se seu discípulo, foi visitá-lo. À entrada do templo, entabularam o diálogo.
Ikkyu perguntou:
- Quem és tu?
- Um budista – respondeu Minagawa
- De onde vens?
- Da vossa província…
- Ah!… E que tem acontecido ali nos últimos dias?
- Os corvos crocitam, os pardais chilream.
- E onde crês estar agora?
- Nos campos violeta.
- Por quê?
- As flores, essas glórias da manhã… o áster, o crisântemo, o açafrão…
- E quando murcham?
- É Myiagino (campo decantado pela beleza das flores de outono)
- Que acontece nesses campos?
- Ali flui o rio, varrido pelo vento.

Estupefato ao ouvir tais palavras, que tinham o sabor do zen, Ikkyu levou-o para seu quarto e ofereceu-lhe chá. Em seguida compôs, de improviso, os seguintes versos:
” Um prato delicado eu quisera te dar, Mas ai de mim, o zen nada pode ofertar…”


Respondeu o visitante:
O espírito que só pode oferecer-me o nada
é o vazio original
Iguaria delicada entre as mais

Profundamente comovido, o mestre concluiu:
- Meu filho, aprendeste muito !!!

O verdadeiro tesouro

Bodhidharma, nascido em Sri Lanka uns 500 anos depois de Jesus Cristo, era o 3º filho do rei dessa região indiana. Aos 8 anos de idade podia-se afirmar que ele já tinha o satori. Eis aqui por quê:

Um dia, seu mestre, um monge muito ilustre chamado Hannya Tara, recebeu do rei uma pedra de valor inestimável. 

O mestre perguntou aos 3 príncipes:
“Conheceis alguma coisa mais valiosa do que esta pedra em nosso mundo?”

O príncipe mais velho respondeu: 
“Somente vós, mestre, recebeste esse presente; estais de posse do mais belo tesouro da terra.”

O 2º príncipe respondeu igualmente: 
”Ainda que busquemos toda a nossa vida, não poderemos encontrar em nosso mundo uma pedra que se lhe compare.”

Bodhidharma, que tinha então 8 anos, disse por sua vez: 
“É um verdadeiro tesouro, um tesouro inestimável, mas é um tesouro deste mundo, um tesouro vulgar. Por isso mesmo penso que a nossa verdadeira sabedoria tem grande valor. Compreender o valor deste tesouro é igualmente uma forma de sabedoria; não obstante, tal sabedoria carece de profundidade; compreender que o diamante é uma pedra preciosíssima, de valor muito maior que um caco de vidro, é sabedoria social.”

E Bodhidharma rematou:
A verdadeira sabedoria consiste em compreender-nos a nós mesmos.”

30 de agosto de 2011

Seu café da manhã está esfriando


Estudante Zen: "Então, Mestre, a alma é ou não imortal? Sobrevivemos à morte de nosso corpo ou nos aniquilamos? Nós realmente reencarnamos? Nossa alma se divide em partes componentes que se reciclam, ou entramos no corpo de um organismo biológico como uma única unidade? E retemos ou não nossa memória? Ou a doutrina da reencarnação é falsa? Talvez a noção da sobrevivência cristã seja mais correta? Se for assim, temos ressurreição do corpo ou nossa alma entra num reino puramente platônico e espiritual?"
Mestre: "Seu café da manhã está esfriando".

Esta é a maneira do Zen: trazê-lo para o aqui e agora. O café da manhã é muito mais importante do que qualquer paraíso, do que qualquer conceito de Deus, do que qualquer teoria da reencarnação, da alma, do renascimento e de toda essa tolice. Porque o café da manhã está aqui e agora.

Para o Zen, o imediato é o final, e o iminente é o transcendental. Este momento é a eternidade... você precisa estar desperto para este momento.

Assim, o Zen não é um ensinamento, mas uma estratégia para perturbar sua mente sonhadora e de alguma forma criar um tal estado que você fique alarmado, que você tenha que se levantar e ver, uma estratégia para criar tal tensão à sua volta a ponto de você não poder permanecer dormindo confortavelmente.

E esta é a beleza do Zen e a revolução que ele traz ao mundo. O Zen tenta acordá-lo; ele de modo nenhum tem consolos. E ele não fala sobre grandes coisas. Não que estas grandes coisas não existam, mas falar delas não vai ajudar.

28 de agosto de 2011

Busca



"O macaco busca a lua na água
Até que a morte o encontre, não desistirá
Se apenas abandonasse o galho e sumisse no lago profundo
O mundo inteiro brilharia com surpreendente claridade"

fonte : http://opicodamontanha.blogspot.com/

26 de agosto de 2011

Uma xícara de chá

O mestre japonês Nan-in recebeu um professor de filosofia.
Servindo-lhe o chá, Nan-in encheu a xícara do visitante,
e continuou vertendo.
O professor assistiu ao transbordamento até não conseguir mais
conter-se:
"Pare! A xícara está cheia, nada mais pode entrar."
Nan-in disse:
"Assim como esta xícara, você está cheio de suas próprias opiniões
e especulações. Como posso mostrar-lhe o zen sem que
você esvazie a sua xícara primeiro?".


11 de agosto de 2011


Um descanso no caminho de volta
Da  Estrada Esburacada
Para a Estrada Nunca-Esburacada;
Se chover, deixe que chova;
Se ventar, deixe que vente.

Meu eu de há muito tempo,
Em natureza não-existente;
Nunhum lugar para ir quando morto,
Nada absolutamente.

Quando perguntavam, ele respondia;
Nenhuma pergunta, nenhuma resposta;
Então o Mestre Daruma
Deve ter tido
Nada em sua mente.

Nossa mente-
Sem fim,
Sem princípio,
Embora tenha nascido, embora morra...
A essência do vazio!

Todos os pecados cometidos
Nos Três Mundos
Se dissolverão e desaparecerão
Comigo.


Mestre Zen Ikkyu

Significado:
´´A Estrada Esburacada´´ significa este mundo, o mundo dos desejos. Através dos desejos estamos perdendo nossa energia, desperdiçando nosso ser e desaparecendo. Toda criança nasce como um imperador, e logo o reino, a pureza e a inocência são perdidos. 
´´Estrada nunca-Esburacada´´, o mundo antes de nós, a origem, o estado da não feição.
O objetivo de todas as meditações é perceber isso novamente, dentre todo este barulho da Estrada Esburacada, dentre todas essas pessoas que estão correndo atrás de pensamentos...reconhecer e perceber a face original quando você nçao era um corpo nem uma mente, mas somente uma consciência pura, uma testemunha. Se você puder permanecer neste estado, suas energias de vida não se dispersarão.
Quando a pessoa volta ao estado original, ela presencia tudo que a vida pode dar.

Meu eu de há muito tempo,
Em natureza não-existente;
Nunhum lugar para ir quando morto,
Nada absolutamente.

Antes do nascimento, éramos não-existentes, e assim, de novo, seremos após a morte. Nenhum eu existia e nenhum eu existirá após a morte.
Esta é uma das meditaçãoes fundamentais. Se isso puder se assentar, que ´´eu não sou´´, então de repente o mundo da estrada esburacada desaparece. Quando não existe o eu(ego), a ambição é irrelevante. Se houver um eu, então a ambição é relevante.

Quando perguntavam, ele respondia;
Nenhuma pergunta, nenhuma resposta;
Então o Mestre Daruma
Deve ter tido
Nada em sua mente.

A mente, em sua pureza, é apenas um espelho, um espelho vazio; ela nada contém. 
Na meditação, a mente se torna mais e mais como um espelho. Lentamente toda a poeira dos pensamentos desaparece, todas as nuvens de desejo desaparecem... e então não sobra nada. A mente, em sua pureza, é apenas um espelho, imperturbado pela paixão e desanuviado pelos pensamentos; tudo está como é.
A pessoa iluminada não tem respostas prontas, não tem pensamento pronto para atirar em nossa cabeça. Ela responde, e suas totalidades são suas respostas. Ela é um espelho. O discíplo vem a frente do Mestre e ele responde ás necessidades do discíplo. 
Daruma- o nome japônes de Bodhidharma - respondia quando questionado, comia quando estava com fome, dormia quando estava cansado. A verdadeira vida de um sábio, nada em mente: nirvana.


Nossa mente-
Sem fim,
Sem princípio,
Embora tenha nascido, embora morra...
A essência do vazio!

A mente da Estrada Nunca-Esburacada é eterna.
A mente da Estrada Esburacada é passageira, a mente pequena é apenas um reflexo, e reflexos nascem e morrem. Está é a essência do vazio.

Todos os pecados cometidos
Nos Três Mundos
Se dissolverão e desaparecerão
Comigo.

Os Três Mundos são os mundos do passado, do presente e do futuro: O mundo dos tempos.









6 de agosto de 2011

Agir de acordo com a verdadeira natureza.


"Quando andar, apenas ande,
Quando sentar, apenas sente;
Acima de tudo, não vacile."

Mestre Zen Umon



Como Umon tão claramente demostrou, a essência do Zen é transmitida mais diretamente através da linguagem da experiência diária e não com frases acadêmicas ou teológicas.
O objetivo pragmático do Zen é levar o praticante a uma experiência direta da vida em si. Eliminar todas as distinções dualísticas como eu/você, verdadeiro/falso, sujeito/objeto, a fim de chegar a uma consciência da vida não condicionada por palavras e conceitos.


Palavras de mestres

O Zenji Eihei Dogen (1200-1235), fundador do Soto Zen Japonês, disse:

Aprender o caminho de buda é aprender sobre si mesmo. Aprender sobre si mesmo é esquecer-se de si mesmo, é estar ilumindado por tudo, no mundo. Estar iluminado por tudo é deixar cair o próprio corpo e a própria mente.

É este deixar cair o corpo e a mente que leva a compreensão de que não existe uma entidade fixa chamada comumente de si mesmo. Só existe o espaço ilimitado, infinito, desobstruido. Nas palavras do Sensei Genpo, um mestre Zen dos nossos dias:

Este espaço, também chamado de "vazio" ou Shunyata, não é um mero vácuo, mas é real, pleno e existente. É a fonte da qual todas as coisas emanam e para a qual retornam. Não pode ser visto, tocado ou conhecido e, no entanto, existe como "Eu" e está sendo livremente usado por cada um de nós, a cada momento das 24 horas do dia. Não temos contornos, nem tamanho, nem cor, nem forma e, entretanto, tudo que vemos, ouvimos e tocamos é "ele".
Está além do nosso conhecimento intelectual e nunca será realizado pela mente racional. Em outras palavras, está absolutamente fora do nosso alcance. Quando somos subitamente acordados e compreendemos claramente que não existem nem nunca existiram barreiras, compreendemos que somos todos uma coisa só: montanhas, lua, estrelas, universo, somos todos o si mesmo.
Não mais existe uma divisão ou barreira entre o si mesmo e os outros, não mais quaisquer sentimentos de alienação, medo, ciúme ou ódio pelos outros, pois já se sabe e está comprovada a evidente realidade de que não existe nada separado do si mesmoe, portanto, nada a temer. Esta compreensão naturalmente resulta na "verdadeira compaixão". As pessoas e coisas não são mais vistas como separadas, mas como o próprio corpo.



2 de agosto de 2011

Jûgyû-no-zu As Dez Figuras do Apascentar do Boi

Entre as várias formulações dos níveis de realização do Zen, nenhuma é mais amplamente conhecida do as Figuras do Apascentar do Boi, uma seqüência de dez ilustrações com comentários em prosa e verso. É provavelmente por causa da natureza sagrada do boi na antiga Índia que esse animal veio a ser usado como símbolo da natureza primária do homem, ou natureza búddhica.

Os desenhos originais e o comentário que os acompanha são atribuídos a Kakuan Shien (Kuo-an Shih-juan), um mestre Zen chinês do século XII, mas ele não foi o primeiro a ilustrar por meio de figuras as sucessivas etapas da realização Zen. Existem versões mais primitivas da quinta e oitava figuras, nas quais o boi branqueia progressivamente e o último desenho é um círculo. Isso deixa subentendido que a percepção da unidade (isto é, o apagamento de qualquer concepção de si e do outro) era a meta final do Zen. Kakuan porém, julgando que isso estava incompleto, acrescentou mais duas figuras além do círculo, para tornar claro que o homem do Zen de mias elevado desenvolvimento espiritual vive no mundo secular de forma e diversidade e se une com a máxima liberdade aos homens comuns, inspirando-os, pela sua compaixão e irradiação, a andar pelo caminho do buddha. Essa versão foi a mais largamente aceita no Japão e se revelou no decorrer dos anos como uma fonte de instrução e inesgotável inspiração para os estudantes Zen.



1. Procurando o boi

O boi nunca se extraviou realmente, então por que procurá-lo? Tendo dado as costas à sua verdadeira natureza, o homem não pode vê-lo. Por causa de sua corrupção, perdeu de vista o boi. Repentinamente, defronta-se com um labirinto de caminhos cruzados. A ambição de ganhar terreno e o pavor da perda surgem como chamas extintas; idéias de certo e errado projetam-se como adagas.
Desolado através das florestas e aterrorizado nas selvas, ele procura um boi que não encontra.
Acima e abaixo, rios escuros, sem nome espraiados;
Em matas espessas ele percorre muitas trilhas.
Cansado até os ossos, com o coração pesado, continua a buscar algo que não pode encontrar.
Ao entardecer, escuta cigarras gorjeando nas árvores.



2. Encontrando os rastros

Através dos sutras e dos ensinamentos, ele distingue os rastros do boi. Foi informado que, assim como vasos de ouro de diferentes feitios são basicamente do mesmo ouro, também cada e toda coisa é uma manifestação do si. É, porém, incapaz de distinguir o bem do mal, a verdade da mentira. Não passou realmente pelo portão, mas tenta ver os rastros do boi.
Viu pegadas sem número
Na floresta e à margem das águas.
Em que distâncias vê ele a relva pisada?
Mesmo as gargantas mais profundas das mais altas montanhas
Não podem esconder o focinh
o desse boi que toca diretamente o céu.



3. Primeiro vislumbre do boi

Se ele apenas escutar atentamente os sons cotidianos, chegará à compreensão e no mesmo instante verá a verdadeira fonte. Os seis sentidos não são diferentes dessa verdadeira fonte. Em qualquer atividade a fonte está manifestamente presente. É algo análogo ao salto na água ou à liga na tinta. Quando a visão interior está corretamente focalizada, chega-se à compreensão de que aquilo que é visto é idêntico à verdadeira fonte.
Um rouxinol gorjeia num ramo,
O som brilha nos salgueiros ondulantes.
Ali está o
boi, onde poderia esconder-se?
Essa esplêndida cabeça, esses cornos majestosos,
Que artista poderia retratá-lo?



4. Agarrando o boi

Hoje ele encontrou o boi, que tinha estado longamente concorveando nos campos agressores e realmente o agarrou. Por tanto tempo ele demonstrou nestes arredores que não era fácil fazê-lo romper com os velhos hábitos. Continua com os velhos hábitos. Continua a ansiar por pastagens cheirosas, é ainda obstinado e indomável. Se o homem quiser domá-lo inteiramente, tem de usar seu chicote.
Ele precisa agarrar o laço com firmeza e não deixá-lo escapar
Porque o boi tem ainda tendências doentias.
Ora se precipita para as montanhas,
Ora vagueia numa garganta nevoenta.




5. Domando o boi

Ao surgir um pensamento, outro e mais outro nasceram. A iluminação traz a compreensão de que esses pensamentos não sã irreais, já que brotam de nossa verdadeira natureza. É somente porque a ilusão ainda permanece que eles são considerados irreais. Esse estado de ilusão não tem origem no mundo objetivo, mas em nossas próprias mentes.
Ele deve segurar com firmeza o cabresto e não permitir ao boi vaguear
Para que não se extravie por lugares lamacentos.
Devidamente cuidado, torna-se limpo e gentil.
Solto, segue de bom grado a seu dono.




6. Montando no boi e trazendo-o de volta à casa

Cessou a luta, ganho ou perda não mais o afetam. Ele cantarola melodias rústicas dos lenhadores e toca os cantos simples das crianças da aldeia. Montando no boi, contempla serenamente as nuvens no alto. Não volta a cabeça na direção das tentações. Embora alguém possa tentar perturbá-lo, permanece impassível.
Cavalgando livre como o ar, ele volta animadamente para casa
Através da bruma a tarde, de capa e amplo chapéu de palha.
Aonde quer que vá, produz uma brisa fresca
Enquanto uma profunda tranqüilidade domina em seu coração.
Esse boi não precisa nem de uma folha de relva.




7. O boi foi esquecido, ele está só

No Dharma não há dualidade. O boi é a natureza primária; ele o reconheceu agora. Uma armadilha não é mas necessária quando se apanhou um coelho, uma rede torna-se inútil quando se pegou um peixe. Como o ouro separado da escória, como a lua que atravessa as nuvens, um raio de luz brilha eternamente.
Somente no boi poderia chegar à casa
Mas eis que agora o boi desapareceu
E o homem se senta, sozinho e tranquilo.
O rubro sol anda alto no céu
Enquanto ele sonha placidamente.
Ao longe, sob o telhado de palma
Jazem seu chicote inútil e seu laço inútil.




8. Esquecido do boi e de si mesmo

Todos os sentimentos ilusórios pereceram e as idéias de sanidade também se extinguiram. Ele não permanece no estado de "Eu sou um buddha" e supera rapidamente o estágio de "Agora me purifiquei do orgulhoso sentimento de que não sou buddha". Mesmo os mil olhos dos quinhentos buddhas e ancestrais não podem discernir nele uma qualidade específica. Se centenas de pássaros fossem agora juncar de flores o seu quarto, ele não poderia envergonhar-se de si mesmo.
O chicote, o laço, o boi e o homem pertencem igualmente ao vazio.
Tão vasto e infinito é o céu azul
Que não pode atingi-lo.
Conceito de nenhuma espécie.
Sobre um fogo ardente, um floco de neve não pode subsistir.
Quando a mente atinge esse estado,
Chega finalmente a compreensão
Do espírito dos antigos ancestrais.




9. Voltando à fonte

Desde o puro princípio não houve tanto quanto um grão de poeira para macular a pureza intrínseca. Ele observa o crescer e o descrever da vida no mundo, enquanto permanece imparcial num estado de imperturbável serenidade. Esse crescer e decrescer não é fantasma ou ilusão, porém uma manifestação da fonte. Por que então há necessidade de lugar por alguma coisa? As águas são azuis, as montanhas verdes. Só consigo mesmo ele observa a mudança incessante das coisas.
Ele voltou à origem, retornou à fonte,
Mas foi em vão que tomou suas providências.
É com se estivesse agora cego e surdo.
Sentado em sua cabana, não almeja as coisas que estão fora.
Os riachos serpenteiam por si mesmos,
As flores vermelhas desabrocham naturalmente vermelhas.





10. Entrando na praça do mercado com mãos serviçais

O portão de sua casinha está fechado e mesmo os mais sábios não podem encontrá-lo. Seu panorama mental desapareceu por fim. Segue seu próprio caminho, não tentando seguir os passos dos antigos sábios. Carregando uma cabaça, passeia pelo mercado; apoiado em seu bordão, volta para casa. Ele guia os estalajadeiros e os peixeiros no Caminho do Buddha.
Com o peito descoberto e descalço, ele entra na praça do mercado.
Enlameado e empoeirado, como sorri mostrando os dentes!
Sem recorrer a místicos poderes,
faz árvores secas florescerem de repente.
(Shien, Kakuan. As dez figuras do apascentar do boi com comentário e versos.
In: Kapleau, Philip.
Os Três Pilares do Zen. Coleção Corpo e Alma.